EM “A PANTERA”, SEU PRIMEIRO TEXTO PARA TEATRO, CAMILA APPEL
PROPÕE REFLEXÃO SOBRE A CONVENIÊNCIA DOS RELACIONAMENTOS
Com direção de Luiz Montes, espetáculo estreia dia 30 de setembro, no Centro Cultural São Paulo
Levar à frente um relacionamento pela conveniência da vida a dois ou enfrentar o desconforto de romper este caminho natural das coisas, deslocado e sozinho? Este questionamento, talvez um dos mais recorrentes da natureza humana, permeia o espetáculo “A Pantera“, de Camila Appel, que estreia em 30 de setembro no Centro Cultural São Paulo, na Capital.
Dirigida por Luiz Montes e trazendo em seu elenco os atores Sílvia Lourenço e Gustavo Vaz, a montagem cumpre temporada até o dia 7 de novembro, com sessões de quinta a sábado, às 21h; e aos domingos, 20h. A direção de arte é de Fábio Namatame, a iluminação de Guilherme Bonfanti e a trilha sonora, de Miguel Buckup.
Aos 29 anos e com um livro lançado, (“Do Avesso”, Ed. Ofício das Palavras, 2007), Camila Appel faz de “A Pantera” seu primeiro texto para teatro. O argumento surgiu quando frequentava nos EUA um curso com Paul Selig, uma de suas principais influências na dramaturgia internacional, ao lado de Edward Albee. No retorno ao Brasil, decidiu levar as cenas que escreveu para o palco, identificando também uma carência de espetáculos que estimulem o público jovem à reflexão.
“Hoje, tudo é planejado para dois, nada é para um”, sentencia Camila, propondo um olhar sobre casais que tendem a se unir “racionalmente”, mais por seguir uma espécie de rumo esperado pela sociedade do que seus próprios sentimentos, por mais primitivos que sejam. “As pessoas tem medo de interromper este movimento, temem não pertencer ao contexto. As divergências são escondidas, ao mesmo tempo em que as justificativas para a união se afastam da paixão propriamente dita”, observa.
Em cena, um casal de namorados se vê preso num supermercado, diante de uma pantera à solta pelos corredores. Numa busca instintiva pelo seu habitat natural, o animal selvagem encontra-se agora numa realidade ameaçadora e desconfortável, transformando-se numa sombra fantasmagórica para o futuro casal. Se antes discutiam o que sairia das prateleiras para o carrinho de compras, agora revelam uma incompatibilidade maior, sem escuta ou concessões, agredindo-se mutuamente num ambiente claustrofóbico.
Para o diretor Luiz Montes, que traz para os palcos uma longa experiência em preparação de atores no cinema, o grande desafio da montagem é atingir um grau de realismo que aproxime do cotidiano o surrealismo da situação “Optei por uma textura mais orgânica, humana, em sintonia com o que a autora pretendia, desde o início de seu processo de criação”, lembra.
Neste sentido, Montes trabalhou nos primeiros ensaios com a improvisação e o reconhecimento da cena, sem a leitura do texto propriamente dita. “Criamos uma relação entre eles, para que um pudesse se alimentar das reações do outro, sempre em estado de alerta”, lembra.
O simbolismo proposto por Camila Appel nesta comédia dramática também encontrou paralelo num poema do tcheco Rainer Maria Rilke, descoberto pela própria autora enquanto concluía seu trabalho. Em “Der Panther” (1903), Rilke descreve a agonia de um animal enjaulado no Jardin des Plants, em Paris, onde animais exóticos eram mantidos vivos para pesquisa.
Na tradução de Tércio Redondo: “Seu olhar, de tanto contemplar as grades, está cansado e já nada vê. É como se o cercassem milhões de barras e por trás delas nada mais houvesse / O corpo forte se move com suavidade perfazendo um círculo diminuto; executa uma dança de força em torno a um ponto, onde uma férrea vontade jaz entorpecida. Por vezes as pupilas se abrem silenciosas. Atravessa-lhes então uma imagem que percorre a tensa serenidade dos membros e se exaure no coração”.
Sinopse – Dias de hoje, São Paulo. Um casal de namorados faz compras num supermercado, a uma semana do casamento. No meio de uma discussão sobre molhos, Ele percebe que estão sozinhos e trancados ali. Entre os sussurros dos dois, escuta-se o rugido de uma pantera.
Diante da ameaça, Ela (Sílvia Lourenço) pensa em estratégias, mas Ele (Gustavo Vaz) se nega a fazer concessões. Não se escutam mais. Até que a discussão sobre a pantera fica em segundo plano, tamanha a cegueira da competição de ofensas, que revelam segredos trágicos. Se dão conta de que dependem um do outro, mas já estão mais atraídos pela selvageria do contexto que criaram.
PERFIS
Camila Appel (texto)
Formada em Administração de Empresas pela EAESP-FGV e com mestrado em Antropologia, a paulistana Camila Appel é filha e neta de escritoras. A avó, Antonieta Assumpção, foi amiga de Monteiro Lobato e escreveu livros infantis. A mãe, Leilah Assumpção, é dramaturga e escritora. Em uma viagem de mochilão ao sul da Ásia, surgiram as ideias que resultaram em seu primeiro livro, “Do Avesso”. Deixou de lado a carreira empresarial e decidiu profissionalizar-se na arte da escrita. “A Pantera” é sua peça de estreia.
Luiz Montes (direção)
Bacharelado em Cinema e Vídeo pela USP, com especialização em roteiro cinematográfico, trabalhou como preparador de atores no Studio Fátima Toledo de 2002 a 2006 . Foi preparador de atores do longa “É Proibido Fumar” (Anna Muylaert, 2008), diretor de casting de “Tropa de Elite” (de José Padilha, 2006). Dirigiu o projeto “Vida em 5 minutos”, da Livraria Cultura. Roteirizou e dirigiu os curtas “Balaio” (2004), “Enjaulados” (2003), “Banco de Sangue” (1998) e “Esperando Roque” (1995). Foi roteirista publicitário e professor de roteiro e narrativa audiovisual em diversos cursos.
Silvia Lourenço (atriz)
Formada no Teatro-Escola Célia Helena, integrou o Centro de Pesquisa Teatral (CPT), de Antunes Filho. Atuou em “Pequenas Histórias que a História não Conta”, direção de Luiz Carlos Moreira, “Essa Nossa Juventude”, dirigida por Laís Bodansky e “As Meninas”, adaptação de Maria Adelaide Amaral para o romance de Lygia Fagundes Telles, entre outros. No cinema protagonizou “Contra Todos” e “Quanto Dura o Amor?”, ambos de Roberto Moreira. Também esteve no elenco de “Querô” e “O Cheiro do Ralo. Na TV, atuou em “Alice”, da HBO e na série “Tudo Novo de Novo”, da TV Globo.
Gustavo Vaz (ator)
Formado pela Escola de Teatro Martins Penna, integra a Kompanhia do Centro da Terra, de Ricardo Karman, atuando em montagens como “O Kronoscópio” e “A Ilha do Tesouro”. Também atuou em “Por Trás do Céu”, “O Cigano”, “Roberto Zucco”, “Presiganga”, “Diário de Um Louco”, “Sofrônia”, “Inês de Castro” e “Vidas Inúteis”. No cinema, participou do curta “Contos de Obituário”.. Integrou o elenco das minisséries “Tudo Que É Sólido Pode Se Derreter”, na TV Cultura e “Maysa”, na TV Globo. Protagonizou “Control C + Control V”, série do site MSN e inúmeras campanhas publicitárias.
Guilherme Bonfanti (luz)
Atua desde 1987, com trabalhos nas artes cênicas e artes plásticas. Dentre seus principais projetos para teatro, destacam-se as óperas “Don Giovanni” e “La Boheme” em Curitiba, “Madame Butterfly” em Manaus e “Carmen”, em São Paulo. Iluminou também espetáculos de dança para o Ballet Stagium e foi diretor técnico do Teatro da Vertigem. Trabalhou ainda com diretores como Eduardo Tolentino (“Rasto Atrás”, “Do Fundo do Lago Escuro”) e Gabriel Villela (“Ópera do Malandro”, “Sonhos de Uma Noite de Verão”). Desenvolveu projetos luminotécnicos para quatro Bienais Internacionais de São Paulo. Acumula cinco prêmios Shell, três APCA e um prêmio Mambembe.
Fábio Namatame (direção de arte – cenários, figurinos e programação visual)
Formado em Publicidade e Artes Plásticas pela FAAP, realiza trabalhos de direção de arte, cenário e figurinos para teatro, óperas, cinema, TV e publicidade. Assinou cenários e figurinos de espetáculos como “Desmedeia”, de Denise Stoklos, “Intimidade Indecente”, de Leilah Assumpção, “Mar de Gente”, de Ivaldo Bertazzo e “O Mistério de Irma Vap”, com direção de Marília Pêra. Fo figurinista também de “Cenas de Um Casamento”, direção de Vivien Buckup, “Joana Dark” e “A Loba de Rayban”, de José Possi Neto; das óperas “Carmem”, de Carla Camurati e “Olga”, com direção de William Pereira; e dos musicais “My Fair Lady”, “West Side Story” e “O Rei e Eu”, todos dirigidos por Jorge Takla; entre outros.
Miguel Buckup (trilha sonora)
Entre seus mais recentes trabalhos estão a assistência de trilha sonora e sonoplastia da intervenção cênica “Mauísmo” e assistência de direção musical do espetáculo “Kastelo”, ambos do Teatro da Vertigem; e a criação, operação de trilha sonora e sonoplastia das leituras dramáticas “Guerra Santa”, “Fome de Notícia” e “Edite Pescoço de Cisne”, todas do projeto Novos Diretores do Teatro da Vertigem.
Cristina Sato (direção de produção)
Dentre suas inúmeras produções para artes cênicas, TV e cinema, estão: “Amante Inglesa”, com direção de Paulo Autran; “Doce Deleite”, com direção de Marília Pêra; “Cyrano de Bergerac”, dirigido por Flávio Rangel; “Fragmentos de Um Discurso Amoroso”, direção de Ulysses Cruz; “Brasil S/A”, com direção de Marcos Caruso; “Intimidade Indecente” e “As Pontes de Madison”, ambas com direção de Regina Galdino. Produziu ainda as mostras cinematográficas “Um Ator e O Cinema: Antonio Fagundes” e “Imagens Dilacerantes: Nelson Rodrigues e o Cinema”.
SERVIÇO – A PANTERA
Local: Centro Cultural São Paulo – Sala Paulo Emílio.
Endereço: Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso (Metrô Vergueiro) – São Paulo (SP).
Bilheteria: (11) 3397-4002.
Temporada: de 01 de outubro a 7 de novembro.
Sessões: Quintas, sextas e sábados, às 21h; Domingos, às 20h;
Classificação etária: 14 anos.
Duração: 80 minutos.
Capacidade: 100 lugares.
Acesso para deficientes / Ar condicionado
Preço: R$ 15 (com meia-entrada). Retirada duas horas antes de cada sessão.
FICHA TÉCNICA
Texto Camila Appel
Direção Luiz Montes
Elenco Silvia Lourenço e Gustavo Vaz
Iluminação Guilherme Bonfanti
Direção de Arte Fábio Namatame
Trilha Sonora Miguel Buckup
Assist. Direção Camila Biondan
Direção de Produção Cristina Sato
Produção Executiva Marcella Castilho
Paulo Ferrer
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